Focando no desfecho, ele resume bem o problema da temporada final inteira: conveniência de roteiro pra todo lado. Dificuldades que antes eram enormes simplesmente deixam de existir. Obstáculos são resolvidos rápido demais, sem esforço real, sem consequência. O Mundo Invertido, que já foi assustador, imprevisível e mortal, virou quase um cenário qualquer. Os personagens andam por lá com uma facilidade absurda, algo que nunca existiu antes. As criaturas, que eram uma ameaça constante, praticamente somem, parece que alguém limpou o mapa pra história poder acontecer sem atrapalhar.
O confronto final, especialmente Eleven contra Vecna, sofre muito com isso. Era pra ser o ápice da série, um momento tenso, difícil, sofrido. Mas acontece rápido demais. Não dá tempo de sentir medo, de achar que alguém vai morrer ou que tudo pode dar errado. Aquela sensação de ficar na ponta da cadeira, torcendo e apreensivo, simplesmente não aparece. Em nenhum momento o perigo parece real. A impressão é clara: nessa última temporada, Stranger Things está sendo jogado no modo easy. Tudo funciona, tudo dá certo, tudo se resolve sem grandes perdas.
Curiosamente, a melhor parte vem depois da batalha. O encerramento do ciclo é bonito, calmo e emocionalmente honesto. É ali que a série acerta. O foco volta para os personagens, para os laços que eles construíram, para o crescimento de cada um. Dá até aquela vontade de continuar acompanhando a vida deles, mesmo sabendo que isso já não faz sentido, nem pela idade dos atores, nem pelo desgaste da própria série. Esse final mais humano relembra o que sempre foi o coração de Stranger Things: amizade, amadurecimento e conexão, não apenas monstros e caos.
No fim das contas, Stranger Things termina como uma série marcante, que acompanhou uma geração inteira por quase dez anos. O carinho permanece, a nostalgia também. Mas junto disso fica a sensação de oportunidade perdida. Talvez acabando antes, talvez mantendo o nível de tensão que fez a série ser tão especial no começo, o impacto teria sido muito maior. Do jeito que ficou, o adeus é correto, até bonito, mas longe de ser tão intenso quanto poderia e deveria ter sido.
Marcio Oliveira 3



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