
Depois de muita embromação e de ver um monte de cenas jogadas nas redes sociais, finalmente assisti Pecadores. E o filme me pegou de cara pela qualidade. Não só na parte técnica, mas principalmente na forma como ele conta a história. Dá pra sentir que tudo ali é pensado, e que muita coisa é dita sem precisar ser explicada, confiando que o espectador vai ligar os pontos.
A parte técnica que mais chama atenção é o trabalho com os gêmeos vividos por Michael B. Jordan. Não é só atuação, é efeito, enquadramento e encenação funcionando juntos. As interações entre eles soam naturais, como se fossem realmente duas pessoas em cena, cada uma com seu ritmo, sua presença e sua linguagem corporal. Em pouco tempo você esquece que é o mesmo ator fazendo os dois, e isso diz muito sobre o nível de cuidado do filme.

Mas o que realmente me fisgou foi o que existe por trás da trama. Pecadores é um filme cheio de alegorias e nem tenta esconder isso. A mistura de blues, vampiros brancos, negros contaminados e religiosidade cria um conjunto simbólico forte demais pra ignorar. O blues não está ali só como trilha. Ele representa dor, sobrevivência, identidade e memória do povo negro americano. É música como história, como fé e como resistência.
Quando o filme mostra vampiros rezando o Pai Nosso, a mensagem fica ainda mais pesada. A sensação é bem clara. Até demônios são capazes de orar quando isso é feito da boca pra fora. Palavras vazias não têm poder, mesmo quando vêm embaladas como algo sagrado. É uma crítica direta à fé usada como performance e como ferramenta de controle, não como algo que realmente salva.
A forma como o filme retrata a segregação racial num período pesado da história americana também é essencial. Ele mostra que as alternativas que restavam ao povo negro eram quase sempre dolorosas, violentas ou condenadas desde o início. Nada ali é limpo, nada é confortável, porque aquele mundo também não era.

A violência visual e a linguagem pesada não estão ali só pra chocar. Elas deixam tudo mais visceral, impedem que essa história seja consumida de forma suave ou distante. Pecadores não quer ser um filme agradável. Ele quer ser honesto.
Talvez, se fosse mais direto nas falas, o filme virasse só mais uma polêmica rasa de internet. Ao apostar na alegoria, ele se protege e se aprofunda. Nem todo mundo vai captar tudo o que está sendo dito ali, e tudo bem. Mas quem percebe, quem lê nas entrelinhas, acaba se deliciando com a beleza da obra.
No fim das contas, Pecadores não me surpreendeu pelo que mostra, mas pelo jeito que mostra. Não é um filme extraordinário como fantasia, mas se destaca muito pela força da história e das ideias que carrega. É um terror que usa o fantástico pra falar de fé, cultura, opressão e identidade. E é aí que ele realmente brilha.
Marcio Oliveira 4.5
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