
Assistir a este novo filme do Homem-Aranha e sair da sessão extremamente satisfeito é pouco, pois a sensação é de que o MCU finalmente entregou a versão definitiva de Peter Parker nas telonas. O maior mérito da produção está em seu roteiro, com uma narrativa fluida que sabe acelerar e desacelerar no momento exato, dando o tempo necessário para a imersão.
O grande destaque é ver Peter assumir uma entrega genuína ao Aranha, coroada pelo fato de termos, enfim, um personagem adulto. Quatro anos após os acontecimentos de Sem Volta para Casa, ele demonstra a maturidade e a experiência de alguém que aprendeu a se virar completamente sozinho. A tecnologia utilizada faz total sentido dentro de suas capacidades atuais, sendo fruto de sua própria evolução como herói, e não de recursos herdados de Tony Stark. Afinal, antes mesmo de conhecê-lo, Peter já havia criado seus próprios lança-teias. É um herói independente, enfrentando conflitos urbanos e pessoais como sempre deveria ser.
- O Peso das Relações e a Vida Cotidiana
Os coadjuvantes funcionam muito bem. Bruce Banner e Yelena Belova cumprem papéis importantes sem roubar o protagonismo, participando de maneira orgânica e fazendo a trama caminhar sem que nada pareça gratuito.

A relação entre Peter e MJ ganha novos ares e funciona muito melhor desta vez. Separados, os dois se tornam ainda mais interessantes, pois a distância imposta pelo feitiço de Sem Volta para Casa faz com que cada encontro carregue um peso emocional colossal. O mesmo vale para Ned. Ver Peter observando à distância as duas pessoas mais importantes de sua vida seguindo em frente, enquanto ele leva uma existência solitária e melancólica, torna tanto o romance quanto a amizade ainda mais preciosos. É uma escolha simples, mas devastadora para ilustrar o verdadeiro preço que Peter paga por ser o protetor de Nova York.
No entanto, nem tudo é perfeito na rotina do herói. Um ponto negativo gritante é que o filme deixa totalmente de lado como ele ganha a vida. Para um personagem cuja essência clássica envolve lutar para pagar as contas trabalhando como fotógrafo ou qualquer bico honesto, a ausência absoluta de explicações sobre sua subsistência financeira faz falta. São detalhes práticos que geram estranheza, embora fiquem longe de anular a qualidade geral da obra.
- Vilões, Ação e o Choque com o Justiceiro
Os diversos vilões são apresentados em cenas rápidas, direto ao ponto, como nos quadrinhos. Eles surgem de forma natural, respeitando a familiaridade do público sem perder tempo com exposições maçantes, pois eles simplesmente são o que são.
Entre as participações especiais, Frank Castle, o Justiceiro, é o grande destaque absoluto. A química entre ele e Peter nasce do choque frontal entre duas visões completamente opostas de justiça. Esse contraste rende diálogos afiados e momentos divertidos, onde o humor surge organicamente da personalidade de ambos, sem quebrar a tensão das cenas.

As sequências de ação impressionam profundamente. O balanço nas teias nunca foi tão bem executado no MCU, e a velocidade, o peso e a sensação de liberdade a cada movimento entre os prédios são excelentes, ficando apenas atrás de O Espetacular Homem-Aranha 2, que continua sendo a referência máxima nesse quesito.
- O Grande Elefante na Sala: A Chegada dos Mutantes e Jean Grey
Abrindo os portões para os spoilers mais pesados, o filme insere elementos que abalam as estruturas do MCU, a começar pela introdução de Jean Grey. É, no mínimo, curioso e um tanto estranho ver uma mutante desse calibre inserida no universo cinematográfico atual sem qualquer preparação prévia. Fica a grande questão sobre como vão costurar a abordagem dos mutantes daqui para frente, já que eles nunca foram mencionados antes, o que gera estranheza sobre como passaram completamente fora do radar da S.H.I.E.L.D. ou de outras agências.
Jean não é a primeira mutante da história, e a existência formal da Escola Xavier, de figuras como Magneto, Apocalipse e outros mutantes ancestrais exige um malabarismo de roteiro complexo para inseri-los de maneira correta, respeitando suas bagagens, experiências e a história oculta que o mundo deveria conhecer.
- O Colar Inibidor e a Culpa de Peter
Para piorar o psicológico já castigado de Peter, o filme revela uma reviravolta dolorosa: o Controle de Danos agora dispõe de uma tecnologia que promete ser o pesadelo definitivo da raça mutante, o colar inibidor de poderes. O golpe mais cruel para o protagonista é descobrir que Peter foi, indiretamente, o responsável por sua criação, fornecendo as bases lógicas ou estruturais para o projeto sem saber o seu verdadeiro propósito final. É mais uma carga de culpa para o herói carregar, unindo o destino dos Vingadores e dos heróis urbanos ao calvário que os mutantes enfrentarão.

- Ação Física e Contradições de Roteiro
Mesmo com tantos acertos, o roteiro escorrega em algumas conveniências para fazer a história avançar. É difícil engolir, por exemplo, a inconsistência física de Peter, pois ele consegue sair relativamente ileso de sequências de pancadaria desferidas pelo Hulk, mas misteriosamente sangra e sofre para lidar com os golpes dos ninjas do Tentáculo. Pequenos deslizes de coerência testam a suspensão de descrença, mas acabam soterrados pelo ritmo eletrizante da projeção.
- A Cena Pós-Créditos e o Futuro no MCU
A cereja do bolo vem na cena pós-créditos, onde o Homem-Aranha é localizado operando no espaço.
O que isso significa? Abre-se um leque imenso de possibilidades cósmicas. Ser rastreado fora da atmosfera terrestre indica que a atenção de potências galácticas, seja a Espada, os Kree ou ameaças ainda maiores, voltou-se para a Terra, colocando Peter em um tabuleiro muito maior do que os becos de Nova York.
Deixas para o futuro: Essa revelação prepara o terreno para as próximas grandes fases do MCU, conectando os conflitos urbanos e a questão mutante a uma escala cósmica iminente.
Com uma evolução inteligente dos poderes que remete sutilmente aos filmes clássicos de Tobey Maguire, o saldo é extremamente positivo. Quando o hype baixar, vale a pena destrinchar cada detalhe, mas a recomendação imediata é ir ao cinema, assistir e se divertir.
Tom Holland nunca esteve tão confortável e preciso no papel, e ele nunca foi tão Homem-Aranha como neste filme. Sem dúvida alguma, este é o melhor filme do Miranha desde o segundo do Raimi, deixando a nítida sensação de que o melhor ainda está por vir no horizonte do MCU.
Márcio Oliveira
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