Falcão e o Soldado Invernal, um legado que vai muito além de Steve Rogers

Falcão e o Soldado Invernal, um legado que vai muito além de Steve Rogers


As expectativas para a série dos heróis que protagonizaram o destino do escudo de Steve dividiu muita gente, alguns achavam que seria só mais uma "série de policial de super herói genérica", outros, apontavam certa curiosidade sobre o novo arco preparado pelo MCU. Além disso, Wandavision mexeu com todos, nos deixando órfãos com o seu final, o que aumentava as pressões em cima da nova série da Marvel.

Os primeiros episódios, assim como em Wandavision, foram bastante lentos, no seu tempo marchado, sem muita pressa em lançar a trama de uma vez. Eles serviram para ambientar particularidades dos nossos dois heróis, evidenciando seu lado humano, falho, seus problemas mundanos, pessoais e, talvez, mais desafiadores que qualquer batalha épica, afinal, nem tudo dá pra se resolver na porrada.

Assim, Sam conquista o público com a mesma ferramenta usada por Peter Parker: ser um herói humano, que se aproxima de realidades como a minha e a sua. O homem que já ajudou a salvar o mundo inteiro tem consigo problemas sociais bastante injustos, principalmente ligados a questões financeiras, além de ser amplificado pela conjuntura do racismo estrutural.

Todavia, existe aqui um elemento que caminha junto ao construído pelo Pantera Negra: o debate incisivo, poético e forte na luta contra o racismo nas obras de herói. Se Wakanda expressa uma ideia da África, de cultura um povo, crenças, vestimentas, tradições, etc., Falcão e o Soldado Invernal carrega consigo uma poética sobre a constante luta do povo negro em território norte americano.

Nesse sentido, somos apresentados a Família de Sam, seus amigos, o legado de suas família, seus desafios (...) um ambiente que parece protegido, assim como fazia o Gavião Arqueiro. Mas que não é, e essa instabilidade não é devido só a elementos voltados para as aventuras das obras da Marvel, mas pelas conjunturas reais, seja do racismo, ou da desigualdade social seletiva que, em várias obras de Hollywood, parecem simplesmente não existir. Sam é o herói nacional, não reconhecido como deveria, ao mesmo tempo que é o herói do bairro, da comunidade (... como o cabeça de teia), mas além, que carrega consigo a ideia de abrir portas para representatividade, como o Pantera Negra fez, dessa vez, em um outro ambiente, um país historicamente racista, com diversos episódios cruéis reais e atuais, como de George, que foi morto asfixiado por policiais em plena luz do dia, sendo filmados e sem ter cometido crime algum. (inclusive, seguem praticamente impunes até a presente data).

Nesse arco de complexidades, não é fácil para muitos fãs que não entendem toda essa estrutura histórica e social compreender o que se passa na cabeça de Sam. Como ser aquele que vai herdar o escudo do Capitão América em uma conjuntura dessas? O desafio, saga e o arco que torna-se um desafio psicológico de Sam tem uma narrativa forte, madura, adulta, atual, ampla e formidável, não sendo mais uma "obra qualquer de super herói". A seriedade desse debate torna essa obra muito mais pesada que outras que simplesmente deixam a fotografia mais escura e acinzentada. O colorido da fotografia, ou as piadas sem hora, escondem por de trás das obras da Marvel um debate sério, atual e necessário.

Assim, Capitão América 4 chega com uma força que muitos não esperavam. A série se antecipa, e coloca os "haters" em uma situação completamente desconfortável para aqueles que não compram a ideia de Sam como capitão. Inclusive, esse público é representado na série, colocando-os em desconforto a pensar sobre como é complexo e necessário ter Sam como o novo Capitão, não só por uma questão histórica, racial, mas pelo fato de merecer sim o legado do escudo. Aliais, aqui, nós somos contemplados a perceber que houveram outro "Capitão América" negro que antes não havia sido revelado, com uma história mais trágica, digna do governo norte americano, de forma que: mesmo feitos emblemáticos, ele nunca desfrutou do mesmo reconhecimento que Steve Rogers teve, aliais, ele foi excluído da história, até Sam entrar em ação. Uma poética que fala muito sobre a conjuntura atual do combate ao racismo.

Por outro lado temos Bucky, e uma exploração melhor da contextualização do seu passado, do peso que ele precisa carregar por ter sido um fantoche por tanto tempo, tornando sua perspectiva algo bem mais complexo do que apresentado em guerra civil. A busca da redenção, através de tentar ajudar as pessoas que ele prejudicou, ou punir aqueles que se beneficiaram com os assassinatos que ele cometeu injustamente, passa a ser bem mais trabalhado. A redenção do personagem é um dos pontos cruciais da série, ele também movimenta bastante a trama, não sendo só um cara de braço de metal com uma metralhadora, como em filmes passados. Bucky nessa obra teve duas funções: estruturar a narrativa histórica e psicológica do seu personagem, ganhando mais espaço no universo Marvel, como um personagem ligado ao novo Capitão América, ao Mercado do Poder (novo antagonista em potencial) e a Wakanda; mas também de ser o personagem que caminha junto ao espectador de analisar e assistir as complexidades de Sam e sua dificuldade de ficar com o legado do escudo. Assim como Bucky, muitos fãs não compreendiam aquelas conjunturas (outros poderiam até preferir Bucky como Capitão), mas a forma como assistimos, junto a Bucky o caminhar de Sam, tudo fica mais didático e com uma narrativa poderosa (inclusive, a narrativa do Agente Americano caminha lado a lado a essa perspectiva).

Uma série de acertos decisivos sequenciais e que tem grande peso para o Universo Cinematográfico Marvel. No fim, talvez a única coisa que não tenha atendido as espectativas foi o novo traje de Wakanda, que acredito que poderia ser bem mais poderoso, com o advento da nanotecnologia.




Palestrinha do Callango Nerd, Estudante do Curso de Cinema e Audiovisual (Unifor), Mestre Jedi e em Geografia (UECE), Fotógrafo, Videomaker, amante de RPGs, filmes, livros e histórias fantásticas.


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