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A ODISSEIA | Nolan acerta no épico, mas peca no ritmo


Desde que Christopher Nolan anunciou que adaptaria A Odisseia, a expectativa se tornou inevitável. Afinal, estamos falando de um dos maiores diretores do cinema contemporâneo revisitando um dos pilares da literatura ocidental. Poucas obras influenciaram tanto a narrativa moderna quanto o poema atribuído a Homero, escrito por volta do século VIII a.C., cuja estrutura continua servindo de inspiração para livros, filmes, séries e jogos até hoje.


Diferente da Ilíada, que acompanha os últimos dias da Guerra de Troia e eterniza figuras como Aquiles e Heitor, A Odisseia acontece depois da queda da cidade. O conflito acabou, mas a verdadeira batalha de Odisseu apenas começou: voltar para Ítaca, reencontrar sua esposa Penélope e recuperar seu reino após vinte anos longe de casa. É uma história menos sobre guerra e mais sobre sobrevivência, inteligência, tentação e perseverança.


Essa é justamente a direção escolhida por Nolan. Assisti à cabine de imprensa do filme e demorei alguns dias para escrever sobre ele. Fiquei matutando bastante porque entrei na sessão esperando uma obra-prima. Saí admirando muitos aspectos do filme, mas sem a sensação de ter visto o melhor trabalho da carreira do diretor. Para mim, A Odisseia está longe de ser um filme fantástico. É uma produção extremamente competente, visualmente deslumbrante e tecnicamente impecável, mas que sofre com um descompasso entre sua enorme ambição artística e o ritmo narrativo.


O início é, sem dúvida, seu maior problema. Os primeiros vinte minutos são lentos, excessivamente contemplativos e exigem bastante paciência do espectador. Entendo que Nolan queria estabelecer aquele universo antes de mergulhar na jornada de Odisseu, mas a construção demora mais do que deveria. Durante esse trecho inicial, o filme parece caminhar com freios puxados.


Ao mesmo tempo, existe uma decisão criativa que me agradou bastante. Quem esperava uma fantasia explosiva, repleta de criaturas digitais e poderes sobrenaturais, talvez estranhe a abordagem escolhida pelo diretor. Nolan mantém sua identidade autoral e trata os deuses exatamente como os antigos gregos frequentemente os compreendiam: como forças da natureza que interferem diretamente na vida humana. Zeus se manifesta através dos raios. Poseidon através da violência do mar. O sobrenatural nunca parece completamente fantástico, mas sim algo quase palpável.

Essa leitura imediatamente me lembrou a excelente HQ Hércules, de Steve Moore, que também procura reinterpretar a mitologia grega sob uma ótica mais racional e histórica, sem abrir mão do seu caráter épico.


Quando finalmente chegamos ao encontro com o Ciclope, o filme muda completamente de marcha. É nesse momento que Nolan demonstra toda sua capacidade de transformar o impossível em algo crível. A sequência dentro da caverna é claustrofóbica, brutal e extremamente tensa. O Ciclope nunca soa como um simples efeito visual; sua presença possui peso físico, tornando aquela ameaça assustadoramente real. Pouco depois, a passagem pela ilha de Circe oferece outro dos grandes momentos do longa. A fantasia ganha contornos de horror psicológico, criando uma atmosfera perturbadora que foge completamente do convencional dentro das adaptações da mitologia grega.


Visualmente, são cenas extraordinárias. Curiosamente, a maior força do filme também é seu maior obstáculo. Nolan parece muito mais interessado em fazer o público experimentar o desgaste da jornada do que apenas assisti-la. Em vários momentos somos convidados a contemplar o silêncio, o vazio do oceano, a passagem do tempo e o peso físico carregado por Odisseu. Existe uma intenção artística clara aí. O problema é que essa proposta acaba sacrificando o ritmo, tornando a experiência irregular.


Sobre o elenco, Matt Damon faz um excelente trabalho. Esqueça qualquer comparação com Aquiles em Troia. Odisseu nunca foi definido pela força física, mas pela inteligência, pela estratégia e pela capacidade de sobreviver onde outros guerreiros morreriam. Damon incorpora muito bem esse homem cansado, envelhecido e marcado por duas décadas de perdas. É uma atuação bastante contida, mas eficiente. Robert Pattinson entrega, talvez, uma das atuações mais marcantes do elenco. Seu personagem é daqueles que despertam antipatia quase imediata, e isso acontece muito por causa da intensidade que o ator imprime em cada cena. Tom Holland também surpreende bastante. Longe do carisma juvenil que o tornou famoso, aqui ele demonstra uma maturidade dramática que talvez represente seu trabalho mais sólido até agora.


Elliot Page, interpretando Sínon, pode causar estranhamento à primeira vista pelo porte físico. No entanto, conforme a narrativa avança, fica evidente que essa fragilidade é uma escolha consciente da produção. Seu personagem representa alguém colocado em uma guerra muito maior do que sua própria capacidade de enfrentá-la. Lupita Nyong'o está excelente como Helena de Troia. Sua interpretação mistura culpa, sofrimento e dignidade de maneira bastante convincente, tornando sua presença muito maior do que o tempo de tela poderia sugerir. Charlize Theron, por outro lado, acaba sendo pouco aproveitada. Sua Ninfa possui uma presença elegante, mas desaparece rapidamente diante de um elenco tão forte.

Dois nomes que também merecem destaque são Jon Bernthal e John Leguizamo. Bernthal imprime sua intensidade característica ao personagem, construindo uma figura que transmite autoridade e brutalidade sem precisar exagerar nos diálogos. Já Leguizamo entrega uma atuação surpreendentemente equilibrada, funcionando como um importante contraponto em diversos momentos da narrativa. Ambos poderiam facilmente passar despercebidos em um elenco tão estrelado, mas conseguem deixar sua marca.


Tecnicamente, há muito pouco a criticar. A fotografia é magnífica. A direção de arte impressiona pela riqueza dos cenários. O desenho de som amplia constantemente a sensação de grandiosidade, enquanto a trilha sonora acompanha a jornada com a imponência esperada de uma epopeia dessa dimensão.


Tudo funciona, exceto o ritmo. Em diversos momentos, a narrativa perde impulso justamente quando deveria acelerar. Há sequências longas demais e outras que mereciam respirar um pouco mais. O resultado é um filme que alterna momentos absolutamente fascinantes com trechos que parecem intermináveis.


Talvez essa tenha sido uma decisão deliberada de Nolan. Talvez ele realmente quisesse que o espectador sentisse o peso dos vinte anos enfrentados por Odisseu. Se essa era a intenção, ela foi alcançada. No fim da sessão, eu me sentia tão exausto quanto o próprio protagonista.


A Odisseia é uma adaptação respeitosa da obra de Homero, impressiona pelo gigantismo da produção e oferece algumas das sequências mais memoráveis da carreira de Christopher Nolan. Ainda assim, a irregularidade do ritmo impede que alcance o patamar de excelência que muitos esperavam.


Não é o melhor filme de Nolan. Também não é a adaptação definitiva da mitologia grega. Mas continua sendo um espetáculo cinematográfico que merece ser visto na maior tela possível.

4 Marcio Oliveira

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